Depois de assistir à série original da Netflix Os Casos de Harry Hole, resolvi dar uma chance e conhecer os livros de Jo Nesbø que deram origem à adaptação. No entanto, apesar de gostar de suspenses policiais, O Morcego não me agradou muito. Será que eu estava esperando demais?
Título Original: Flaggermusmannen
Autor: Jo Nesbø
Tradução: Gustavo Mesquita
Gênero: Ficção Policial
Editora: Record
Páginas: 350 p.
Ano de Publicação: 2016
A ensolarada Sidney abriga um assassino brutal. O corpo de uma jovem norueguesa é encontrado em um rochedo no fundo de um penhasco. O caso intriga a polícia: a vítima apresenta sinais de estrangulamento e suspeita-se de violência sexual, mas não há qualquer vestígio de DNA ou impressão digital do criminoso. Para colaborar com as investigações, a Divisão de Homicídios de Oslo envia o inspetor Harry Hole à cidade. Um homem problemático, que luta contra o alcoolismo e tenta superar um trauma do passado. Junto com Andrew Kensington, um investigador de origem aborígine e passado misterioso, Harry se depara com um caso mais complexo do que imagina: o assassinato da jovem, que inicialmente parecia ser um crime isolado, acaba por apresentar-se como o último elo de uma longa cadeia. Um serial killer está à solta, um homem cruel que já violentou e matou mulheres em toda a Austrália e nutre certa predileção por loiras. A caçada para prender o assassino transforma-se na busca de Harry pela própria redenção. Mas, à medida que o cerco se fecha, ele é posto à prova, e seus temores se transformam em seu pior pesadelo.
No início, o livro meio que se arrasta sem te levar a lugar algum. A priori, vamos sendo apresentados a lugares turísticos, a lendas e mitos aborígenes e, por fim, ao submundo da vida noturna de Sydney. Além disso, o livro se estrutura em três partes, baseando-se na lenda trágica de Walla e Moora que, segundo a tradição, é assassinada pela cobra gigante Bubbur. Movido pela raiva e pela perda de sua amada, Walla procura se vingar de Bubbur, preparando uma armadilha para ela. Partindo daí, vamos acompanhando a investigação; o envolvimento amoroso de Harry com a melhor amiga da norueguesa morta, a sueca Birgitta; as parábolas contadas por Andrew Kensington; as conversas infrutíferas com possíveis testemunhas do caso; a recaída de Harry com a bebida; e a morte de mais vítimas do serial killer.
O livro tem elementos-chave comuns em narrativas de suspense policial, mas para mim certas justificativas não me convenceram. Andrew escolheu trabalhar com Harry quando ninguém mais queria. Mesmo sendo aborígene, Andrew não foi criado pelo seu povo. Ele é, inclusive, descrito como um policial implacável, no entanto, ele sabia o tempo todo a identidade do serial killer, mas não revelou a ninguém. Pelo contrário, tentava fazer com que Harry percebesse quem era o verdadeiro assassino por meio de histórias e lendas. O motivo pelo qual ele faz isso é de que ele não conseguiria prender o assassino, mas isso - sinceramente - não me convenceu de modo algum.
Além disso, quando o personagem do palhaço vivido por Otto é assassinado, todos começam a acreditar que Andrew é o assassino. O caso é abafado pelo departamento, já que embora a mídia especule que o assassino da jovem Inger era Otto e que o assassino de Otto era Andrew, Harry insiste em afirmar que o assassino da norueguesa era seu ex-namorado, Evans White. Na tentativa de prender White, Harry sugere que Birgitta, uma civil, se coloque como isca para fazer com que Evans confesse o crime e é aí que tudo desanda e a polícia comete diversos erros ridículos que poderiam muito bem ser evitados.
O verdadeiro serial killer (Bubbur) sequestra Birgitta (Moora) e Harry (Walla) precisa correr contra o tempo para salvá-la. O que não seria necessário se ele não a tivesse colocado em risco, ao envolvê-la numa investigação de assassinato em andamento e menos ainda que todo o departamento de polícia tivesse concordado com isso. Será que não tinha nenhum policial à paisana que pudesse acompanhar Birgitta a pé até o parque onde ela se encontraria com Evans e onde todos aguardavam em suas respectivas posições? Além disso, não há nenhuma repreensão a Hole por ter se envolvido romanticamente com Birgitta, o que seria no mínimo super antiético. Mesmo suspeitando que o assassino poderia ser outro e mesmo sabendo que estava lidando com um serial killer perigoso, Harry não só não compartilha essa informação com os colegas como acha uma excelente ideia usar Birgitta como isca.
Outro ponto que poderia ser melhor desenvolvido é que depois de contar aos colegas que o verdadeiro serial killer tinha ligado para ele, em nenhum momento, o celular dele é grampeado para rastrear onde o assassino e Birgitta estão. Já no final, quando finalmente Bubbur é encontrado, não faz o menor sentido um assassino procurado se esconder em um aquário cheio de visitantes e de turistas. O mesmo aquário onde Harry e Birgitta se encontraram e fizeram amor sob o olhar da arraia-viola e do tubarão branco. Bubbur estava sempre um passo a frente da polícia, poderia ter escapado, fugido, mas não, ele resolve ficar em Sydney escondido num local fechado e cheio de pessoas.
Harry assume o papel de Walla para vingar a morte de sua Moora. No entanto, o desfecho de Bubbur é até meio irônico e forçado. Mas o problema em si nem é o final, pois tudo o que queremos é ver o assassino preso, todavia, a maneira como alguns fatos foram desenvolvidos deixou muito a desejar. A motivação do assassino é citada ao longo do livro quando é trazido o conceito de "terra nullius". O próprio serial killer o utiliza ao se justificar para Harry, mostrando que ele tinha mais ressentimento pelo que fizeram com os nativos australianos do que por ele ser apenas um psicopata doentio.
Talvez o livro não tenha me cativado tanto quanto eu esperava. Harry não é o melhor protagonista de todos, mas disso já sabíamos, mas são as falhas da polícia que me incomodaram mais. Erros estúpidos que poderiam facilmente ser evitados, já que durante a narrativa nenhum policial é retratado como idiota e negligente e, mesmo assim, cometem erros desnecessários, provocando a morte de pessoas inocentes apenas por conveniência do roteiro. Para o primeiro livro da série de Harry Hole, temos um Harry lutando contra um passado marcado por perdas e traumas, tudo conforme vimos na série, porém, fiquei meio decepcionada em como o livro é meio arrastado e cansativo em alguns momentos; em como erros evitáveis são normalizados; em como Harry sendo alcoólico bebe um copo de uísque e consegue ter autocontrole, quando em todas as vezes em que bebeu ele não teve controle algum; e em como o desfecho foi exagerado e forçado, para dizer o mínimo. Eu, particularmente, não curti muito a leitura, mas recomendo para os fãs do gênero que deem uma chance, afinal de contas, a série conta com 13 volumes, então, muitas pessoas devem ter gostado.
Nota: ⭐⭐1/2


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