Certamente, todo mundo em algum momento da vida já pensou em largar tudo e se mudar para um lugar desconhecido e começar uma vida nova como uma nova pessoa. Mas Pablo Hernando, protagonista de A Boa Sorte, não só pensou nisso como decidiu largar tudo e se mudar para uma cidadezinha no fim do mundo. Impulsivamente, ele decide sumir de repente sem dizer nada, apenas com a roupa do corpo, a cara e a coragem. Mas até que ponto é possível fugir do seu passado e dos seus fantasmas?
Autora: Rosa Montero
Tradução: Fabio Weintraub
Gênero: Romance
Editora: Todavia
Páginas: 256 p.
Ano de Publicação: 2022
O que leva um homem a saltar de um trem em uma cidade sem maiores atrativos, que não era seu destino original, e se esconder ali? Seu objetivo é recomeçar a vida ou simplesmente acabar com ela? Seja qual for a resposta, o destino o trouxe para uma cidade que está lentamente definhando. Diante de sua casa passam trens que podem ser sua salvação ou condenação, enquanto os perseguidores apertam o cerco. A ruína parece mais perto a cada dia.
A Boa Sorte nos apresenta dois personagens muito interessantes e contrastantes: Pablo, nosso protagonista, que vive, o tempo todo, tenso e assombrado pelo seu passado; e Raluca, o total oposto de Pablo, sendo quase uma versão moderna e adulta de Pollyanna (de Eleanor H. Porter), sempre buscando o lado positivo das coisas. Raluca é o sol brilhante e fulgurante, enquanto Pablo vive às sombras dos pesadelos que deixou em Madrid - ou que ele pensou ter deixado para trás.
Mas nele há algo deslocado, algo fracassado e errôneo. Uma ausência de esqueleto, por assim dizer. Isto é, uma ausência completa de destino, que é como andar sem ossos.
Pablo decide, por impulso, saltar no povoado fictício de Pozonegro. Uma lugar pequeno e atrasado, basicamente, o "cu do mundo". O lugar mais feio e sem graça da Espanha. O abandono em forma de vilarejo. O lugar ideal para quem quer se esconder e ficar incomunicável. No entanto, embora seja um povoado sombrio e esquecido pela civilização moderna, Pablo não encontra a paz que tanto busca. Sua fama, por ser um arquiteto renomado, lhe precede e ele acaba se tornando alvo de interesseiros que querem colocar a mão no seu dinheiro. E nessa tentativa de se esconder, Pablo faz o possível e o impossível para evitar ter contato com seus vizinhos de apartamento, o que - felizmente - não dá certo e Raluca não só entra na sua vida, como a vira de cabeça para baixo.
Raluca é um planeta, Raluca é a terra flutuando no espaço, azul, e verde, e branca, pelo chantilly das nuvens, uma bola ensolarada e fulgurante, tão bela como a mais bela joia na solitária escuridão do cosmos. E Pablo é um meteorito que cai desenfreado na direção dela, capturado pela inexorável lei da gravidade.
O amor é capaz de nos transformar? De moldar nossa dor e aliviar nossos fardos? Após lidar com os fantasmas do seu passado, aos poucos vamos descobrindo o real motivo da fuga de Pablo. Em meio a tantas histórias diferentes e mentirosas, Pablo aos poucos vai se desnudando e se importando com as pessoas ao seu redor. Mesmo suportando chantagens e se sentindo fraco e covarde, Pablo ainda descobre que há uma centelha de coragem em seu coração. Ele é capaz de amar novamente e de lutar por esse amor. Além disso, é possível recomeçar em qualquer lugar, quando se encontra o equilíbrio de viver a vida sem medo e sem remorso. Rosa Montero nos agracia com inteligência e malícia aos nos apresentar uma narrativa ágil e antitética, já que no meio de um buraco sujo, escuro e medonho, chamado Pozonegro, é possível encontrar o belo em meio a tanto horror. Super recomendo a leitura. Eu simplesmente sou apaixonada pelos livros dessa autora.
Nota: ⭐⭐⭐⭐⭐

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