Minha Vida Fora de Série - Paula Pimenta

Como diria o personagem de José Wilker, no filme Romance, final óbvio é a morte... e, talvez, seja por isso que as pessoas anseiem tanto por finais felizes. Mas nem sempre os finais perfeitos são tão felizes assim. Recentemente, tentei vencer o preconceito e numa tentativa fenomenológica da coisa me "permiti" ler os dois primeiros livros da série Minha vida fora de série, de Paula Pimenta. A autora, que ficou conhecida com a série anterior de quatro volumes Fazendo meu filme, caiu no gosto da garotada e dos adultos também, sendo a grande maioria desse público feminino. E uma das possíveis razões para ter caído no gosto do público é por tratar de situações e dilemas (?) da adolescência. Apesar da febre dos best-sellers, meu interesse em falar sobre essa série em especial, foi devido aos comentários das minhas alunas ao se referirem à obra com um brilhinho nos olhos, suspirando com inveja da sorte que a Priscila, personagem principal do livro, tinha. Daí me perguntei, que sorte seria essa afinal de contas?


Título Original: Minha Vida Fora de Série
Autora: Paula Pimenta
Gênero: Infanto-Juvenil
Editora: Gutenberg
Páginas: 405 p.
Ano de Publicação: 2011

A personagem principal, Priscila, é uma menina de 13 anos que se vê obrigada a comemorar seu aniversário com a família materna em Belo Horizonte, após a separação dos pais. Priscila morava em São Paulo e saber que seria obrigada a abandonar todas as coisas que amava e conhecia a deixou enraivecida com a mãe. Mudanças são temas interessantes e são extremamente aterrorizantes para adolescentes, que se veem obrigados a sair do grupo do qual faziam parte e eram aceitos para terem que conhecer novos amigos e passarem pelo veredicto de serem aceitos ou não num novo grupo.

Um ponto positivo do livro (ou talvez, bem previsível) foi mostrar que mudanças não são tão terríveis assim e que a adaptação pode ser tranquila e "milagrosa", como no caso da personagem Priscila, que não encontrou maiores obstáculos para fazer amigos e ser popular na sua turma e, posteriormente, na escola inteira.

Além de se adaptar bem a nova vida em BH, Priscila também consegue lidar super bem com a separação dos pais, demonstrando nesse aspecto certa maturidade, mas em outras situações, ao longo da história, mesmo no segundo volume, quando já tem 16 anos, Priscila é muito caprichosa, ingênua e impulsiva.

Mas nem só de maturidade e caprichos oscila a personalidade de Priscila, para proteger os animais ela é extremamente determinada, mas também ingênua. Isso é evidente quando ela faz um protesto no Mercado do bairro incitando os demais ali presentes a também se revoltarem contra o tratamento dado aos animais do pet shop. Além dessa determinação toda, Priscila também é bastante impulsiva e inconsequente, mostrando-se impaciente e impetuosa nos momentos nos quais desconhece parte da verdade e acaba se exaltando desnecessariamente e isso é bastante recorrente quando ela pensa que seu namorado a traiu, agindo com infantilidade, recusando-se a falar com ele. No entanto, quando descobre a verdade completa, desespera-se arrependida por ter agido impulsivamente, o que a faz tomar a atitude de apagar um e-mail que mandou para o namorado do computador dele e é flagrada pela cunhada fazendo isso.

Priscila também é retratada como uma adolescente prodígio: faz aula de jazz, canto, curso de idiomas, joga vôlei, é voluntária na ONG que cuida de animais abandonados e maltratados e ainda por cima é uma excelente aluna e ainda encontrando tempo para ser presidente do Grêmio. Apesar de tantas atividades, que na minha humilde opinião, sobrecarregaria qualquer pessoa, quem dirá uma adolescente que está se preparando para o vestibular, Priscila não tem grandes evoluções ao longo da narrativa. Ela não esboça voos, não se destaca nas coisas que quer e gosta, ela apenas gosta, se esforça, mas não passa disso, ela não vai além. Sem mencionar que muita coisa no texto aparece de forma extremamente romantizada.

A autora numa sessão de autógrafos.

A autora deixou claro, em algumas entrevistas, a sua paixão por contos de fadas e de querer passar isso em suas histórias, porque ela acredita em príncipes encantados. Mas não vamos nos prolongar nisso, afinal, todos nós sabemos as velhas discussões que circundam os príncipes encantados e as velhas discussões sobre a cultura das princesas... Minha vida fora de série não foge muito desses estereótipos e, de certa forma, acaba pecando nisso. Afinal, esses tipos de "abordagem" perpetuam nas garotas a ideia de que o príncipe encantado existe e, nesse caso, que ele tem que ser como o Rodrigo, namorado da Priscila.

Rodrigo é o príncipe da Priscila, ele é o garoto ideal para ela, pois ele escreve poemas, toca violão, é bonito, carinhoso, resumindo, é o carinha que arranca suspiros, mas os suspiros da Priscila. Porém, o fato de o Rodrigo ser o carinha ideal da Priscila  parece não ficar evidente, e isso vai sendo incutido no imaginário das leitoras que ele é o carinha ideal para elas também. Porque toda garota merece um garoto que toque violão, que escreva poemas, que seja sensível, paciente, bonito e uma infinidade de rótulos que o façam parecer o mais assexuado (e inofensivo) possível, o que na realidade é quase impossível.

Há um grande distanciamento da realidade nesse aspecto, mesmo que em determinado momento Priscila diga que não tem um namoro de "só pegar na mão", não há descrições nem de leve sobre isso, reforçando ainda mais a ideia de que Rodrigo é um cara "respeitoso", que não força a barra, que considera que eles são muito novos para fazerem isso naquele momento, pois é ele (e não ela) que sabe quando deverá ser a hora, já que a personagem Priscila em nenhum momento fala sobre isso ou pensa sobre isso. A autora não abriu a oportunidade para que a personagem refletisse e se questionasse (mesmo que meio clichê): "será que eu estou realmente pronta?", eu, particularmente, consideraria isso imprescindível para o final que estava sendo desenhado no volume 2 da série.

Na história, Priscila e Rodrigo namoram há três anos, nos capítulos nos quais o Rodrigo é o narrador, ele menciona que a Priscila se empolgava demais em alguns momentos em que eles estavam a sós. Mas ele se segurava e fazia com que a empolgação deles não fosse adiante. Quer dizer, num único momento em que a personagem sente desejos ela é reprimida. E o ser racional da relação, o Rodrigo, é quem reprime o desejo dela e o dele porque não considera que aquele ainda seja o momento de eles transarem.

O momento da primeira vez dos dois é algo já esperado e previsível. E enfatizo o quão infelizmente isso é previsível. Priscila e Rodrigo vão para o sítio dos pais dele. Todos dormem em quartos separados, com exceção dos pais do garoto, afinal, os pais dele são a reafirmação do "final feliz" após o casamento, né? Enquanto todos dormem, Rodrigo entra no quarto de Priscila e os dois vão para a cama juntos. A princípio, eles apenas ficam abraçados, mas depois começam a se beijar e o clima vai esquentando até que Priscila só percebe que a sua blusa estava no chão depois de algum tempo. E sem saber como a blusa foi parar lá. Eis aí o momento perfeito que o Rodrigo determinou. Priscila só deixa acontecer, ou seja, ela não toma partido porque também está a fim, ela apenas deixa rolar porque foi treinada para ser assim. Priscila é passiva, mas não porque o Rodrigo toma a iniciativa, mas porque ela não toma iniciativa nenhuma. Aceita calada na ilusão de que aquilo é mágico, de que foi com a pessoa certa e de que foi feito com amor.



Investir nesse modelo de primeira vez só reforça a perpetuação das frustrações entre as adolescentes. Incentivar que a primeira vez só deve acontecer se for com amor é ultrapassada. Sim, tudo bem, que haja amor então, mas que haja desejo, que haja iniciativa por parte da mulher, que ela decida que ela tem autoridade sobre esse assunto, que ela deseja fazer amor, fazer sexo, transar, o que for, mas que seja ela e não o cara que decida o quando é o momento de ela "perder" a virgindade.

Esse conto de fadas moderno não supera nenhum outro escrito há milhões de anos. Todos eles mostram uma princesa passiva sempre à mercê do príncipe encantado. Muitos ainda mantêm a mesma fórmula, a princesa que espera pelo príncipe encantado, numa visível posição de passividade, não por estar por baixo no ato sexual, mas por ser arrancada de suas próprias atitudes e ações. Esperemos que ao menos no terceiro volume, a Priscila evolua como pessoa, como ativista em prol da causa dos animais enfim... que ela seja mais ativa e que tome as rédeas das próprias decisões.

Se a Disney mudou a visão dada às novas princesas, como é o caso da princesa Tiana, de A princesa e o sapo, que apesar de casar com o príncipe encantado no final, ela consegue abrir o seu próprio negócio, ou seja, ela tem seu próprio sustento, coisa improvável de acontecer há alguns anos atrás. Outro exemplo, é a princesa Merida, do filme Valente, que na competição de arco e flecha, desafia as tradições de seu reino, gritando através das flechas que não quer se casar e ela não casa. Então, a pergunta que não quer calar, por que não fazer isso nos livros para adolescentes? Por que não criar uma personagem que mesmo que encontre o príncipe encantado, que tenha iniciativa, que seja autora de suas próprias decisões e escolhas? Afinal, são essas as heroínas que influenciarão as adolescentes de hoje e a construção de personagens que aguardam a chegada de um príncipe que mude as suas vidas é algo extremamente preocupante, por que que tipo de futuras mulheres nós estaremos moldando/fabricando? O que fica no ar é o desejo por contos de fadas menos passivos e menos óbvios.

Nota: ⭐⭐

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