Antes de lançarem o Mec Livros, eu conheci o BibliON e foi nessa plataforma on-line que eu tive acesso a esse livro. Eva é aquele tipo de leitura que não é confortável, ela tenta te tirar da sua zona de conforto e te apresentar diversas situações indigestas, mas sempre deixando claro que relações entre mães e filhos podem ser bem complicadas e moldar a vida das pessoas para sempre.
Título Original: Eva
Autora: Nara Vidal
Gênero: Romance
Editora: Todavia
Páginas: 112 p.
Ano de Publicação: 2022
Eva tem o diabo no corpo. Segundo corre na família, seu nome atrai pecado. A dependência afetiva pela figura materna é padrão nos relacionamentos abusivos que a narradora vive quando adulta. Agora, com a mãe morta, o casamento fracassado e um filho ausente, passa a limpo a infância e a juventude. Este é um romance magistral sobre a perda, mas também sobre o acúmulo de controle e violência que pode caber na relação entre mães e filhos e entre amantes.
Como a própria autora falou, Eva nem é vilã nem heroína. Sendo assim, podemos assumir que Eva é apenas uma mulher livre tentando viver sem culpa os seus desejos, mesmo que isso lhe custe viver relacionamentos abusivos sempre beirando o limite da sanidade. Desde criança, Eva é atrevida, como se nada pudesse controlá-la ou subjugá-la e é aí que entra a figura da mãe: controladora e opressora. As duas vivem um tipo de relacionamento problemático e de dependência, que não termina mesmo com a morte da mãe de Eva.
é necessário mentir.mentir sempre.mentir mais.mentir com convicção.mentir novamente.viver mentindo.acordar mentindo.dormir mentindo.sonhar com mentiras.
Eva sempre vai carregar cicatrizes desse relacionamento tóxico e desigual. Desde a infância, era vista como impura, carregando o diabo no corpo, não só pela família, mas por toda a vizinhança, já que a família vivia numa cidade pequena do interior e os olhos de todos estavam sempre observando sua postura e sua falta de pudor e de decência. Eva era o mal em forma de criança, a tentação em corpo de mulher, ou seja, era necessário ser contida e reprimida.
São os outros que nos levam às bordas dos penhascos quando o vento nos engana. Nós não nos jogamos.
Na vida adulta, embora pareça que tenha fugido do jugo materno, Eva vive à sombra de toda a opressão a que foi submetida. Sua noção de amor é distorcida, o que acaba se refletindo na sua relação com o filho. Mesmo que haja amor, não há diálogo nem cuidado. Ambos vivem à parte da vida um do outro. Além disso, Eva acredita que é melhor assim, já que ela mesma se enxerga como algo ruim na vida do filho e de todos ao seu redor. Enquanto lida com o luto e a solidão, Eva vai vivendo cada dia de cada vez, encantada com a vida de uma mulher que compra flores brancas na floricultura todas as quintas-feiras e sucumbindo nas mãos algozes de um antigo amante.
Estou livre e na liberdade não existe nem mesmo amor. É o único ponto-final de fato.
O livro é dividido em três partes: "Superfície", tratando da infância da protagonista; "Profundo", abordando a fase madura; e "Fundo", falando sobre a juventude. Embora seja assim dividido, o livro não segue uma linha temporal bem definida, tendo saltos temporais, indo e voltando do passado para o presente, mas sem fazer com que o leitor se perca nessa transição temporal. Sendo assim, podemos perceber que nas três fases distintas, há a naturalização da opressão feminina na vida de Eva, fazendo com que ela mesma acredite que merece tudo o que a velhice lhe aguarda por ter sido uma mulher leviana e promíscua. Mas sabemos que nenhuma pessoa deveria ser punida por ser livre em suas escolhas. Isso só reforça o quanto a relação com a figura materna deturpou toda a noção de merecimento e autoestima de Eva, que mesmo "livre" não tem amor. Por que ela não merece? Nunca mereceu? Embora tenha alguns lampejos de que as pessoas também contribuíram para isso, Eva ainda sente falta da mãe e do que as coisas poderiam ter sido. Recomendo a leitura.
Nota: ⭐⭐1/2


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